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Regra tem para tudo, para desobedecer e para seguir. Na crítica de arte, normas simples ajudam muito. Uma é de ouro: para descrever a obra, não basta contar a história do tema. Se o trabalho é figurativo, só dizer o que está representado é pouco. No entanto, se alguém me contar que viu o que vejo acontecer nas pinturas de Ana Prata, dificilmente eu acreditaria. Como crer que uma vaca derrete até se solidificar no vidro traseiro de um carro que anda em meio à neve? Na tela Vaca, um veículo amarelo segue moroso enquanto a figura da vaca malhada se desmancha, o carro se desfaz e a paisagem ao redor também se desmancha. Tudo vira borrão de tinta: mancha, ferro, pele, vidro, sombra, neve, luz, tinta.
Quando pinta uma tela, a artista trabalha a partir de procedimentos que mudam pouco. Escolhe uma imagem fotográfica e a transpõe para a estrutura de um quadro. As partes parecem não obedecer à mesma iluminação que na fotografia. A imagem perde duas das características que a unificam: a luz e a verossimilhança. A pintora dá valor diferente a cada figura. Faz isso pela cor, pela pincelada e pela carga de tinta aplicada em cada lugar. De uma ponta a outra do processo, o que era fotografado torna-se algo muito diverso do que aparece nas cores das tintas.
Ao passar as imagens de uma técnica para outra, ela não revela a unidade da obra, mas a descaracteriza. Não comenta a técnica, mas acha naqueles significantes uma possibilidade de mostrar outra coisa. Assim, ao invés de restituir o sentido da imagem, ela o desfaz. Ana Prata desmancha um papel-toalha no cinza da parede, como se afastasse as peças de um quebra-cabeça e remontasse outra imagem. No trocadilho, o sentido da frase é desfeito e recomposto de uma forma irônica. Aqui se trata da visão e não tem ironia. É um jogo de montar e desmontar em que a imagem inicial se perde, mas a pintura ganha.
Tiago Mesquita
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