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O “logos” dos filósofos não
é estranho à arte de Edith Derdyk. A linguagem é
uma forma de compreender o mundo. Assim como o livro amealha folhas
de palavras esparsas, o pensamento pretende dar voz à experiência.
Em Corte, instalação de 2002, feixes de
linhas negras mantêm no ar um quadrado branco. A relação
se inverte agora: a enorme massa de papel, “onda seca”,
produz certa linearidade, como nas páginas de um livro
visto de lado. As linhas costuram o espaço. Naquilo que
Mcluhan chamou de galáxia de Gutenberg, o livro está
no centro, como a Terra ocupava o centro do Universo segundo os
antigos. A cultura letrada representa uma “separação
dos sentidos” e o surgimento da “ilusão tridimensional”.
Na “era eletrônica”, a “galáxia
reconfigurada” retomaria a oralidade e a sinestesia. Na
trilha de João Cabral, o poeta tipógrafo, Edith
elabora a versão plástica da reconfiguração.
Versos atravessam livros. Não se tornam independentes apenas,
são eles mesmos a costura que sustenta esses objetos. Se
os versos reconfiguram livros, as massas de papel se acumulam
de modo inapreensível. Nada as contém. Em sua brancura
inconsútil, são como vastidões oceânicas.
No seu seio transcorrem linhas e histórias. Então
o que vemos é uma luta entre linguagem e matéria,
entre a metáfora (plástica e literária) e
os seus espaços habituais, o livro e o próprio espaço
físico. Não por acaso as exposições
de Edith Derdyk na Pinacoteca do Estado e no Centro Maria Antonia
enfrentaram restrições técnicas quanto ao
peso que as fortes estruturas desses edifícios poderiam
suportar. Foi-se o tempo em que as palavras se acomodavam no interior
dos livros e as obras de arte eram indiferentes ao mundo ao redor.
José Bento Ferreira
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