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Projeto Carne – Arte Passageira
Entrevista com Carmela Gross
Por Rosa Iavelberg, Aline Caetano e Priscila Sacchettin

 

1. Rosa - A “obra efêmera”…
Carmela – Não se trata de uma obra efêmera, mas de uma obra-na-circulação, com os desdobramentos que isto implica – transitividade, impermanência, transformações espaciais e temporais ... Os acontecimentos reais da vida da cidade são componentes dinâmicos da obra, ou melhor, obra e fluxo urbano se pertencem e se misturam.

2. Rosa – E o processo de trabalho…
Carmela – O modo de trabalho para a realização do ônibus-carne comporta um processo coletivo. Há uma concepção, uma direção, talvez um roteiro ou o que chamo de projeto-conceito. E neste caso, projeto não deve ser entendido no sentido estrito de um projeto formal que, antes da obra, planeja todas as operações, o encadeamento das etapas executivas, e que determina o desenho, as linhas construtivas, as técnicas do fazer. Ao contrário, aqui, o projeto é só uma faísca, um vetor que conduz as escolhas pelas variáveis e possibilidades dos materiais, pela experimentação, pelo improviso ... pelo refazer ... As dinâmicas produtivas passam certamente por descobertas individuais e por trocas e decisões coletivas. A obra se faz mediante a organização das experiências sensoriais e cognitivas numa totalidade.

3. Rosa – Você já teve outras experiências nas quais se apresentaram numa só articulação a curadoria, a preocupação com a arte-educação, e mais o seu trabalho, a difusão e o trabalho educativo?
Carmela – Quando se pode aplicar a um acontecimento plástico-visual o título de “obra-de-arte”, ele certamente contém todas estas instâncias. Porque, antes de tudo, o artista é o seu “primeiro curador” e, isto implica um distanciamento crítico e uma experiência histórica. E depois, necessariamente, a obra de arte se desdobra em trocas múltiplas com o outro, que podem também ser compreendidas como educação, aprendizado, conhecimento, difusão, circulação, interação... Como projeto institucional, a proposta arte-ônibus-educação funciona como uma espécie de química reveladora do processo artístico.

4. Rosa – Arte-passageira é uma idéia que nasce no Educativo MariAntonia, mas, Carne, foi você que inventou. Então, eu queria que você falasse um pouco do start dessa poética, que envolveu muita gente?
Carmela – CARNE é um título, um nome próprio. Está no início, no meio e no fim da obra-ônibus. No início, porque é o vetor projetivo que se funde como conceito ao veículo ônibus. No meio, porque conduz as operações plásticas, os processos de feitura e a configuração do todo. E no final, porque é uma chave para a apreensão e percepção da obra, um dos seus sentidos ou parte da sua significação.
Para conectar a idéia de carne ao ônibus, foi preciso cobrir o veículo-máquina com muitas camadas de vermelho, e forrar todas as suas partes também de matéria vermelha. Mesmo com todas as peculiaridades de um ônibus, o veículo virou uma enorme “massa esponjosa” vermelha, na qual dentro e fora, transparência e opacidade, porta, janela, capota, chão, teto e banco constituem uma unidade. No letreiro luminoso, indicativo do seu destino, se lê a palavra CARNE.
Carne quer dizer tecido muscular animal, alimento, coisa-à-venda; e ainda natureza animal ou física do homem. No ônibus CARNE, este homem é um passageiro, para o qual o mundo lá fora, e ele mesmo, são só vermelhidão. Carne viva.

5. Priscila - Fale mais do trabalho coletivo, de ter que passar o projeto para pessoas que vão trabalhar com você...
Carmela – Aline, Carolina, Mônica, Maria - é um privilégio poder trabalhar com estas meninas maravilhosas - uma banda, um balé, no qual as marcas das individualidades aparecem, com as escolhas particulares, as preferências, os pequenos gestos…as marcas digitais. Mas o desenho do espetáculo é maior e envolve uma potência que é coletiva. É importante lembrar que tudo se passa numa enorme garagem de ônibus e, que também há os meninos: João - o homem do vídeo, dois ou três funileiros, alguns mecânicos e pintores, gente olhando, muitos telefones celulares…

6. Priscila – Quer dizer, é uma direção que não exclui o acaso, também…
Carmela – …certamente, o acaso, o risco, o imponderável, o desacerto, a cooperação, a simpatia, a crítica… o exercício da liberdade…. A arte é a experiência de mobilização destas forças criadoras, individuais e coletivas.

8. Rosa – Mas por isso que é importante narrar essa experiência. Os materiais... videografar, é importante narrar porque daí você pode comunicar essa experiência; além da experiência individual, ela pode virar uma experiência social por vários textos, por várias narrativas. Essa idéia do vídeo, do material de apoio didático, da permanência. Talvez a gente faça alguns seminários, para mais pessoas poderem participar disso que aconteceu. É um acontecimento mais que um projeto, eu acho.
Carmela – É! E tira o foco do artista como eminência que é capaz de plasmar o mundo. Não. Não tem isto. O artista é um dos componentes deste processo, cujo sentido se encadeia em relações muito mais amplas… Aqui, o artista não é uma personalidade, destacada do resto da sociedade, e que de repente consegue fazer uma coisa extraordinária... Nada disto.

9. Priscila – Só mais uma pergunta, Carmela. Eu queria saber como você pensa o desenho, e o desenho neste projeto?
Carmela – No sentido corrente, na sua materialidade, o desenho pode ser entendido como um traço, um risco, um rabisco sobre uma superfície. Coisa de lápis e papel. No processo de feitura, como domínio da mão e do olhar, o desenho é expressão e projeto, ou melhor, uma tensão entre os dois termos – risco pensado pela mão e tateado pelo pensamento.
Mas gosto de entendê-lo também como coisa de faca, lâmina, pincel, cola, agulha ou pedra, que roça ou rasga outras superfícies e deixa marcas.
Quer dizer, trata-se da mesma oposição entre intenção e gesto, mas, agora, com outras implicações, que são da ordem da escala, da amplitude, dos deslocamentos, dos suportes, da armação…São muitas variáveis e com muitas operações complexas porque não possibilitam de imediato uma apreensão e um domínio do todo… Cada etapa se soma a muitas outras e envolve o trabalho de muitos... Uma dinâmica de trocas, de escolhas, de ir-e-vir, de convergências, de ajustes e manobras…
No ônibus, os primeiros desenhos, pequenos e sintéticos, correspondem à idéia de projeto, lápis e papel... Já o trabalho efetivo no ônibus – colagem, pintura, dobra e corte – corresponde ao desenho grande, processo, trabalho coletivo…

10. Aline – No projeto CARNE, houve uma mudança. O seu desenho inicial era diferente. Era outra relação das cores, era bem mais mesclado, eram umas tiras com muita diferença de cor meio que tentando uma textura…fala um pouco dessa mudança.
Carmela – É aquilo de que falávamos antes. Claro, que quando você está trabalhando no pequeno, você domina o desenho por inteiro, com um rabisco só. Quando você chega na escala do ônibus, o objeto gigante, que tem três metros de altura e doze metros de comprimento, o suporte mudou inteiramente. Não é mais a folha do papel, nem é o computador com seus comandos…e então, você descobre que as manchas de cor muito pequenas não vão funcionar. Você muda de escala. E mudar de escala não significa só ampliar aquilo que antes era pequeno. Significa repensar numa nova escala, em novas dimensões…foi assim que a gente errou todo começo… Quando começamos a fazer os bancos, ficamos contentes e entusiasmadas com as pequenas manchas, e estava tudo bem. Depois, quando a gente começou a trabalhar lá dentro com as grandes superfícies, as paredes, o chão, o teto, aquilo nos ensinou que os bancos estavam errados e tivemos que refazê-los… Então, poder ir e voltar e, rever aquilo que estava feito, é maravilhoso…

 
     
 
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